Campo de concentração Auschwitz (Polônia) – parte 1

Os prédios que compõem o campo de concentração nazista de Auschwitz
Os prédios que compõem o campo de Auschwitz

Visitar um complexo de campos de concentração nazistas como o de Auschwitz é uma experiência marcante, que nos faz perceber que tudo aquilo que lemos nos livros de história e vemos nos filmes foi muito pior na realidade.

Cabelo humano dos prisioneiros de Auschwitz utilizado para fazer tecidos considerados nobres
Cabelo humano dos prisioneiros utilizado para fazer tecidos considerados nobres

Entrar em contato direto com as evidências dos crimes cometidos contra judeus, ciganos, homossexuais, religiosos, comunistas, deficientes e  adversários políticos (como montes de cabelos de pessoas enviadas para as câmaras de gás ou centenas de latas que armazenavam o gás mortal Zyklon-B), é certamente muito chocante.

Latas do gás Zyklon-B. Ele vinha em formato de pedras e se transformava em gás ao entrar em contato com o ar, a 24 graus Celsius
Latas do gás Zyklon-B. Ele vinha em formato de pedras e se transformava em gás ao entrar em contato com o ar, a 24 graus Celsius

Mas o que esses memoriais e antigas “fábricas da morte” fazem questão de reforçar é que cada pessoa que passou por eles tinha uma história, um nome, uma família e um futuro que foi violentamente interrompido pela ganância e loucura extrema da turma do Hitler. Poderia ter sido eu, você ou qualquer um que se desviasse do padrão estabelecido pelo regime.

A sequência de cercas em Auschwitz
A sequência de cercas em Auschwitz

Ao transpor a sequência de cercas de arame farpado de Auschwitz e conhecer bem de perto as atrocidades que cada um dos seus prédios escondia em seu interior, é possível ter uma ideia do que mais de um milhão de prisioneiros passou neste e nos demais campos. Mas nem de perto pode-se imaginar o seu sofrimento.

"Arbeit Macht Frei" portão de entrada para Auschwitz
Portão de entrada de Auschwitz, com a frase “O Trabalho Liberta”

A frase “O Trabalho Liberta” (“Arbeit macht frei”), escrita no portão de entrada do campo, esconde a verdadeira intenção de escravizar até a morte e dizimar grupos de pessoas, que, com o passar dos anos, chegava em quantidades cada vez maiores ao local.

Total de mortos em Auschwitz
Estimativa para o total de mortos em Auschwitz

Vestindo um uniforme listrado que mal conseguia proteger o corpo do frio, usando sapatos desconfortáveis  e vivendo em condições subumanas de higiene e alimentação, essas pessoas faziam trabalhos forçados durante mais de 14 horas diariamente e era comum terem que caminhar de 3 a 4 horas para chegar ao local de trabalho, independentemente das condições meteorológicas e físicas de cada um.

Placa em Auschwitz
Placa em Auschwitz no local onde corpos eram deixados pelos soldados da SS para ameaçar prisioneiros

Muitos ficavam pelo caminho, outros se entregavam e eram assassinados por “indolência” ou resistência. Seus corpos costumavam ser deixados em um local de passagem obrigatória para outras pessoas, servindo de exemplo aos que ousassem se rebelar dentro do campo.

Paredão de fuzilamento em Auschwitz
O paredão de fuzilamento em Auschwitz

Outro tanto ficava rapidamente doente e era isolado a enfermaria, que ficou conhecida como a antessala da morte. Como não havia interesse em investir no tratamento dessas pessoas, os remédios e recursos médicos eram insuficientes. E em caso de superlotação, a solução era algo como uma injeção letal de fenol no coração – ou a tradicional morte por sufocamento nas câmaras de gás. E esse também era fatalmente o destino da maior parte das crianças.

Fotos de crianças em Auschwitz
Fotos de crianças prisioneiras em Auschwitz

Os gêmeos conseguiam ter uma maior sobrevida e melhores condições que os demais presos, porque eram mantidos como cobaias humanas para as experiências médicas desenvolvidas nos campos. O Dr. Josef Mengele, responsável pela enfermaria do complexo Auschwitz, e sua equipe procuravam saber, por exemplo, se os gêmeos reagiriam da mesma maneira à contaminação por um vírus (que normalmente era injetado simultaneamente em ambos). Além disso, seus comportamentos e características físicas eram comparados e registrados. Suas mortes também poderiam ser forçadamente simultâneas, visando a avaliar a semelhança nas reações e também na dissecção de seus corpos. Sem falar nos demais experimentos cruéis e fatalmente mortais que eram realizados com deficientes, homens e mulheres  – como amputações, testes de resistência física e esterilizações.

Fotos de prisioneiros de Auschwitz
Fotos e dados pessoais de prisioneiros de Auschwitz

É certo que, em determinadas situações, tiramos forças de onde não imaginamos para superar as adversidades, mas penso que eu não resistiria nem um único dia ali dentro. Pelos registros dos nazistas expostos em quadros nas paredes de um dos prédios de Auschwitz, pude perceber que as mulheres conseguiam sobreviver por um período médio de 1 mês ali dentro. Os homens já tinham uma sobrevida mais longa nos campos, que, pelas minhas contas, variava de 4 meses a alguns anos.

Câmara de gás em Auschwitz e o crematório
Câmara de gás em Auschwitz e o crematório

Sem dúvida, os lugares que mais marcaram a minha visita foram a câmara de gás e ao crematório e também ao subsolo de um prédio de Auschwitz, onde ocorreram as primeiras experiências de execução por sufocamente através do gás Zyklon-B. Neste local, havia também “celas especiais” com funções diversas. Em algumas delas, as pessoas eram trancadas para morrer de fome. Em outras, o castigo era ficar de pé por 4 dias em uma área de cerca de 1 metro quadrado, junto a outros três outros prisioneiros – e quase sem ar.

Uma das guaritas de Auschwitz
Uma das guaritas de vigilância de Auschwitz

Não havia limites para a maldade nem para o sofrimento naquele lugar. E também não há como entender o motivo de tanto ódio e preconceito a pessoas inocentes. Tudo chega a ser tão absurdo e sem sentido, que, por vezes, mesmo diante de tantas evidências, você entra em um estado de negação e não consegue admitir que aquilo tudo tenha sido verdade. Mas infelizmente, tudo aquilo realmente ocorreu e marcou pra sempre a história da humanidade.

Uma homenagem aos mortos em Auschwitz
Uma homenagem aos mortos em Auschwitz

Muitas pessoas me perguntam por que decidir ir a um lugar tão triste durante uma viagem de férias a Polônia. Certamente não há nada bonito para ser visto e creio que a paisagem tenha ficado mais sombria com a neve e o tempo nublado. Mas acredito que aprender com os erros do passado é essencial para qualquer um e ter a experiência de visitar os campos de concentração é um convite forçado à reflexão sobre os limites da ganância e do poder.

Confrontar-se com o pior lado do ser humano nos faz rever valores, desperta sentimentos e nos faz querer desesperadamente correr em uma direção contrária. Por tudo isso, eu considero a visita aos campos forte, mas interessantíssima, e certamente nunca mais me esquecerei desse dia.

Sobre Márcia Oliveira 226 Artigos
É uma carioca completamente apaixonada por viagens - assim que chega de uma já está planejando a próxima. Atualmente mora em Munique, na Alemanha. É Jornalista e tem um marido super gente boa que a acompanha em suas aventuras. Adora fotografia. Ama a família e os animais. Aprecia as coisas simples da vida. E adora escrever no blog e conversar sobre viagens!

11 Comentário

  1. No campo de Sachsenhausen, próximo a Berlim, me chocou a forma com que os prisioneiros eram obrigados a usar sapatos de tamanhos diferentes do que precisariam para cumprir as longas jornadas de trabalho… As fotos dos efeitos dessa tortura eram bem chocantes.
    Acho essencial conhecer os períodos vergonhosos da nossa história pra adquirirmos consciência e evitar que aconteça novamente algo remotamente parecido com essa intolerância desumana… parabéns pelo texto, Marcinha!

  2. Queria saber se você pode me indicar calçados apropriados (botas pro frio intenso) para o inverno de Dezembro, uma amiga minha vai pra lá no fim do ano, e não sabe ao certo qual a melhor opção.

    Ps: As suas fotos captam de forma sensacional o peso da atmosfera do lugar…Parabéns!!

    • Oi Claudio!
      Na minha opinião, ela deve comprar a bota por lá mesmo. Tudo é muito mais barato e ela encontrará um calçado mais apropriado para o clima. Existe um shopping com uma grande variedade de lojas que se chama Galeria Krakowska (http://www.galeriakrakowska.pl/). Eu caminho muito durante minhas viagens e acho o tênis mais confortável para andar o dia inteiro, mas sei que as botas são realmente muito mais apropriadas pro fio intenso com neve. Ah, que bom que você gostou das fotos! Obrigada e um abraço!

  3. Gostaria de saber como se chega de trem (se há) de Reggio Calábria, Itália, para a Cracóvia. Obrigada!

  4. Olá, tudo bem? Estarei próximo à Polônia no próximo inverno. Tenho interesse em conhecer a Minha de Sal, o Campo de Concentração e outras, mas o rigor do inverno atrapalha o turismo?

  5. Oi Marcia
    Gostei muito do blog, iremos a Cracóvia no início de novembro, acha que estava muuuito frio?
    Gostaria de ir ao campo de concentração , mas ao mesmo tempo penso que é um lugar triste.
    Obrigada pelas dica
    Graça

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