INHOTIM – parte 3: cultura e arte contemporânea

Não sou rata de museus nem profunda conhecedora dos movimentos artísticos, principalmente o contemporâneo. Mas confesso que me apaixonei por Inhotim, e foi amor à primeira vista!

Peço desculpas aos experts no assunto, caso fale alguma abobrinha neste meu relato sobre Inhotim. De qualquer maneira, arrisco a seguir comentar sobre algumas impressões a respeito das obras que tive a oportunidade de conhecer lá em Inhotim, levando ao pé da letra a ideia que o Instituto deseja transmitir, de que a arte é democrática e de que não é para poucos como muitos de nós imaginamos.
Além da integração com a natureza, uma das coisas mais interessantes das obras de Inhotim é a possibilidade de interagir com elas de uma forma que normalmente não acontece nos museus tradicionais. Ou seja, em Inhotim, muitas vezes, você faz parte da obra de arte e/ou ela depende de você para acontecer e/ou se aperfeiçoar. 
Um exemplo disso é a obra “Através”, de Cido Meireles, que utiliza cacos de vidro no chão e objetos que representam barreiras no cotidiano (cercas, persianas, arame farpado, grades…). Os visitantes podem caminhar sobre os cacos (se estiverem de sapato fechado), ouvi-los se quebrando, e ir driblando as barreiras que formam um labirinto até chegar ao objetivo (uma esfera de plástico que representa um núcleo). Na minha opinião, a obra é um convite à reflexão sobre as barreiras que temos que superar na vida.

“Através”, de Cildo Meireles – foto do site Inhotim

Também de autoria de Cildo Meireles, a obra “Desvio para o Vermelho” é bastante interessante. Para apreciá-la, você precisa tirar os sapatos e entrar na representação de uma casa em que todos os objetos são vermelhos. A interação com a obra se dá ao sentir o carpete felpudo e quentinho e também com a possibilidade de abrir a geladeira (e ver inúmeros alimentos frescos e vermelhos), o armário (que também abriga roupas vermelhas), assistir a vídeos… Depois de apreciar tudo isso, você se depara com uma área escura, de onde vem um som instigante, que desperta sua curiosidade. Seguindo um rastro vermelho no chão, você começa a caminhar em um ambiente muito escuro e gelado, onde, após algumas dezenas de passos desconfiados, encontra uma pia com uma torneira jorrando um líquido vermelho, parecendo sangue. Ou seja: nesta mesma obra, me deparei com a sensação de aconchego e alegria na parte dominada pelo vermelho (cor que para a maioria de nós representa vida) e de um pouco de dúvida e desconforto na parte escura, que, em contraste, com a área da casa, representava a morte, na minha opinião.

“Desvio para o vermelho”, de Cildo Meireles – foto do site Inhotim

A Galeria Lygia Pape também me surpreendeu bastante pela estética de fios dourados presos em bases no chão e no teto. Eles parecem se entrelaçar e se cruzar conforme você vai andando ao redor da obra, criando uma ilusão de ótica bem interessante e quase hipnotizante. Poderia ficar ali horas, admirando a  obra, embora não tenha pensado em um significado para ela.

Galeria Lygia Pape – foto do blog de Inhotim
A “Viewing Machine”, do dinamarquês Olafur Eliasson, localiza-se nos jardins de Inhotim, e cria um efeito  caleidoscópico, demonstrando a possibilidade de novas visões sobre o mundo de maneira lúdica. Tirei várias fotos com esta obra, que é realmente muito divertida.

“Viewing Machine”, de Olafur Eliasson
Meu reflexo na “Viewing Machine”

O “Narcissus Garden”, da artista Yayoy Kusama, é também uma obra impressionante e em constante mutação. Ela consiste em bolas espelhadas de aço inoxidável que flutuam em um lago e que são levadas com o vento e vão se agrupando a cada momento de uma maneira diferente, refletindo em sua superfície a luz e a natureza ao redor – incluindo o espectador. Essa obra rende belas fotos aos visitantes!

As esferas espelhadas refletindo o céu e o sol
Minha imagem refletida na esfera da obra “Narcissus Garden”
A obra de Yayoy Kuama e a natureza ao redor

Uma outra obra que encanta os ouvidos é a “Forty part motet”, de Janet Cardiff . Para apreciá-la, você entra em um salão branco com tratamento acústico e algumas poucas janelas que mostram o verde de Inhotim. Lá dentro, senta-se em um banco localizado no centro do ambiente, em torno do qual ficam 40 caixas de som. Cada caixa representa a voz de um integrante do coral, que canta um moteto – uma espécie de composição medieval. Se desejar ficar no centro, ouvirá as vozes como um todo; se quiser se aproximar de cada uma das caixas, poderá ouvir como se dá a contribuição vocal de cada cantor para o coral. Uma experiência sensorial de arrepiar!

Galeria Adriana Varejão

Falando em beleza arquitetônica, a galeria de que mais gostei foi a de Adriana Varejão. A área externa, com linhas retas, sofisticadas e um lindo espelho d’água azul transmitem a sensação de paz e de modernidade.

Espelho d’água na área externa da Galeria Adriana Varejão

No interior da galeria, gostei bastante da obra “Celacanto Provoca Maremoto”, que me remeteu à bela azulejaria portuguesa, com paineis dispostos de maneira desordenada, refletindo uma espécie de caos.

Outra obra de arte bastante famosa que tive a oportunidade de conhecer em Inhotim foi a “Beam Drop”, de Chris Burden. Sinceramente, essa enorme escultura formada por 71 vigas jogadas por um guindaste sobre uma vala com cimento fresco não me tocou muito. Mesmo assim, aí ficam uma foto e um vídeo que encontrei sobre a performance que envolveu sua produção em Inhotim.


Enfim, ver todo o Inhotim e suas instalaçõe em apenas um dia é muito pouco – principalmente quando está muito calor e não há mais vagas nos carrinhos de golfe que transportam os visitantes pelo Instituto. Assim, terei que retornar em breve para apreciar as obras que não tive tempo de ver e recomendo que vocês reservem pelo menos dois dias para conhecer todas as atrações com calma. Realmente vale a pena!
Sobre Márcia Oliveira 226 Artigos
É uma carioca completamente apaixonada por viagens - assim que chega de uma já está planejando a próxima. Atualmente mora em Munique, na Alemanha. É Jornalista e tem um marido super gente boa que a acompanha em suas aventuras. Adora fotografia. Ama a família e os animais. Aprecia as coisas simples da vida. E adora escrever no blog e conversar sobre viagens!

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